86% das empresas não têm plano de carreira para quem passou dos 40 anos
Foto: Reprodução
86% das empresas não têm plano de carreira para quem passou dos 40 anos

Quem passou dos 40 e sente que a carreira empacou tem muita companhia. Levantamento da PwC Brasil em parceria com a FGV (Fundação Getulio Vargas) mostrou que 86% das empresas pesquisadas não tinham planos de carreira para profissionais acima dessa idade. O curioso é que isso acontece justamente numa época em que as pessoas vivem e trabalham por mais tempo.

O paradoxo é analisado pelo psicólogo clínico Rodrigo Toledo Potechi, pós-graduado em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo , que acompanha no consultório os efeitos desse cenário sobre profissionais de diferentes idades.

Carreiras mais longas, portas que fecham cedo

A expectativa de vida ao nascer no Brasil saltou de 45,5 anos, em 1940, para 76,6 anos, em 2024. Quem chega aos 60 hoje pode esperar viver mais 22,6 anos. Com isso, baby boomers, geração X, millennials e geração Z dividem as mesmas empresas, e há profissionais ativos aos 70 ou 80 anos.

No topo, a renovação anda devagar. Um levantamento mostrou que 19,3% dos CEOs não planejam parar de trabalhar, 6,9% pretendem continuar depois dos 80 e só 16,1% têm um sucessor preparado. Na base, as vagas também encolhem: em 2026, 60% dos CEOs brasileiros ouvidos pela PwC disseram esperar menos profissionais em início de carreira nos três anos seguintes, por efeito da inteligência artificial.

28, 42, 52 e 70 anos na mesma empresa

O resultado é uma estrutura em que convivem alguém de 28 anos tentando entrar, alguém de 42 tentando crescer, alguém de 52 tentando não ser descartado e alguém de 70 sem vontade de sair. Nenhum deles precisa ser apontado como culpado. A vida ganhou décadas, e a estrutura das empresas não cresceu na mesma proporção.

"No fim, desenvolvimento deveria ampliar possibilidades humanas, não apenas abreviar processos. Se estamos vivendo mais, precisamos encontrar formas de fazer essas vidas caberem num mundo profissional cada vez mais enxuto, automatizado e competitivo. Pessoas de 28, 42, 52 ou 70 anos continuam sendo pessoas antes de serem recursos, cargos ou indicadores de produtividade", afirma Toledo.

Quando a frustração vira adoecimento

A trava do mercado acaba sendo vivida de forma pessoal. No consultório, as queixas chegam como "eu devia estar melhor aos 38" ou "parece que todo mundo avançou, menos eu". "Não estamos diante apenas de uma geração mais ansiosa ou menos tolerante à frustração. É uma geração que recebeu uma promessa de mobilidade baseada em estudo, trabalho e desempenho, mas chegou à vida adulta num mundo em que posições e oportunidades circulam de outra maneira. Diante desse descompasso, tenta compensar performando cada vez mais. Em algum momento, corpo e mente cobram a conta", explica o psicólogo.

Para compensar, muitos aumentam a carga: mais horas, mais cursos, mais café, menos sono. O preço aparece em ansiedade, insônia, episódios depressivos e burnout. Em 2025, a Previdência concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais, alta de 15,66% sobre o ano anterior.

"Uma geração inteira aprendeu que, se o resultado não veio, faltou alguma coisa nela: qualificação, disciplina, produtividade, resiliência. Então, aumenta a dose de tudo. Talvez estejamos tentando corrigir indivíduos para adaptá-los a uma equação que também mudou fora deles", diz.

O problema não é só de quem ficou para trás

Para o psicólogo, entender esse paradoxo ajuda a aliviar o peso que muitos profissionais maduros carregam sozinhos. Segundo ele, "cuidar da saúde mental também passa por reconhecer isso: distinguir o que pertence ao sujeito, o que pertence ao mundo em que ele vive e o que ainda pode ser construído entre os dois, sem transformar em culpa individual aquilo que também nasce de um problema estrutural, coletivo e social".

    Compartilhar
    Comentários
    Clique aqui e deixe seu comentário!

    Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

    Mais Recentes