
Cerca de 34 milhões de brasileiros que estavam com o nome sujo há dez anos continuam na mesma situação. O dado está no levantamento especial que a Serasa divulgou em março, quando o indicador completou uma década, e mostra que 42% dos negativados de hoje já faziam parte dessa lista em 2016.
Na prática, quatro em cada dez pessoas negativadas hoje atravessaram uma década inteira sem conseguir regularizar a situação, enquanto novos devedores continuaram entrando na fila.
Para José Gerson Gonçalves, CEO da Siscobra, empresa especializada em Sistema de Cobrança , o número revela que a inadimplência deixou de ser um problema passageiro e se tornou estrutural. "Quando quatro em cada dez inadimplentes são os mesmos de dez anos atrás, não estamos falando de um acidente de percurso na vida financeira das pessoas. Estamos falando de um ciclo que se retroalimenta: a dívida atrasa, os juros crescem, a renda não acompanha e a regularização fica cada vez mais distante", analisa. E completa: "E, do outro lado do balcão, há milhões de empresas que dependem desse dinheiro para fechar as contas do mês."
Dívida cresceu mais rápido que a população
Em dez anos, o número de inadimplentes subiu 38,1%, passando de 59 milhões para 81,7 milhões de pessoas, em ritmo bem acima do crescimento populacional. O valor total das dívidas negativadas foi de R$ 348 bilhões para mais de R$ 539 bilhões, já descontada a inflação. São mais de 332 milhões de dívidas registradas, 43% a mais do que em 2016. Com isso, a dívida média por consumidor chegou a R$ 6.598.
A curva seguiu subindo em 2026. Em julho, a Serasa registrou 83,9 milhões de pessoas com o nome restrito, recorde da série histórica, após 19 meses consecutivos de alta.
Mulheres são maioria, e os idosos avançam
A década também mudou o rosto de quem deve. As mulheres passaram a ser maioria entre os negativados: eram 49,8% em 2016 e agora são 50,5%, o equivalente a 40,4 milhões de brasileiras, contra 27,7 milhões dez anos atrás.
A inadimplência ainda envelheceu. A participação de consumidores com mais de 60 anos, que era a menor entre todas as faixas etárias em 2016, cresceu sete pontos percentuais no período. Já os jovens de 18 a 25 anos perderam espaço nessa conta.
Segundo o executivo, essa mudança obriga quem cobra a tratar cada perfil de um jeito. "Um aposentado de 65 anos endividado no cartão não responde ao mesmo estímulo que um jovem de 22 anos com conta de telefonia atrasada. Canal, horário, linguagem, condição de parcelamento, tudo muda. A cobrança que trata a carteira como uma massa homogênea perde dinheiro todos os dias sem perceber", diz.
Sem virada rápida à vista
Nem os grandes programas de renegociação conseguiram frear o avanço. Desde o encerramento do Desenrola, em maio de 2024, o país somou cerca de 9 milhões de novos inadimplentes. A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, tem reforçado nos relatórios mensais que o crédito segue restrito, mesmo com o boletim Focus projetando uma Selic próxima de 14% no fim do ano.
"Feirão e mutirão de renegociação são importantes, mas são fotografia, não filme", avalia Gerson.
Para ele, a solução não depende só dos juros. "Não dá para esperar o juro cair para arrumar a casa. A inadimplência vai continuar alta por um bom tempo, e a diferença entre quem recupera crédito e quem acumula prejuízo vai estar na gestão: dados, processo e constância", afirma.
Na visão do CEO da Siscobra , é essa combinação que explica por que tanta gente não consegue deixar o nome sujo: a conta atrasa, os juros sobem, a renda fica para trás e o tempo transforma um atraso pontual em uma dívida de anos.
