
Créditos que deveriam durar o mês inteiro sumindo em poucas horas. Foi essa a reclamação de usuários do Copilot depois que o GitHub mudou a ferramenta de inteligência artificial para cobrança por consumo. O caso mostra uma virada que está mexendo com a conta das empresas: cada vez mais, o que se paga pela IA depende de quanto ela é usada.
Para Guilherme Friol, CEO da Vircos , empresa de engenharia de inteligência artificial corporativa, a mensalidade virou só uma parte da conta. O restante vem do consumo variável, das mudanças de preço durante o contrato e do custo de trocar de fornecedor lá na frente.
O que mudou
O GitHub não foi um caso isolado. Entre 2025 e 2026, parte relevante do mercado de software para empresas deixou de cobrar só por usuário e passou a usar modelos híbridos, que juntam a assinatura com uma cobrança por volume de uso. Quem tinha feito o orçamento pelo número de pessoas começou a pagar pelo que foi processado, sem ter mudado nada no contrato.
“Quando você compra inteligência artificial por assinatura, o fornecedor sabe exatamente qual é o custo marginal de cada resposta que você consome. Você não sabe. Toda renegociação começa com essa assimetria”, afirma Friol.
A conta que estoura
Outro caso conhecido é o da Uber. A empresa criou um teto mensal por funcionário e por ferramenta de codificação depois de gastar em quatro meses o orçamento de IA previsto para o ano. E a tendência é o consumo crescer: segundo a Gartner, os sistemas agênticos, que fazem tarefas em sequência, usam entre 5 e 30 vezes mais tokens por pedido do que um chatbot comum.
Friol diz que o problema costuma nascer na hora da escolha. Quem decide compara a mensalidade, que tem valor fechado, com uma estimativa do quanto custaria construir a própria ferramenta. O gasto variável, o mesmo que fez os créditos do Copilot acabarem rápido, não entra nessa comparação.
“A pergunta que quase ninguém faz na hora de assinar não é quanto custa por mês. É quanto custa sair daqui em três anos”, diz o executivo.
E sair também custa. Quanto mais tempo a empresa usa a ferramenta, mais dados, regras e configurações ficam guardados com o fornecedor. Trocar de fornecedor no terceiro ano custa uma ordem de grandeza a mais do que no primeiro, segundo o CEO da Vircos.
Dá para se proteger?
Dá, e comprar pronto nem sempre é o problema. Friol aponta três casos em que a compra é a escolha certa: quando o processo é igual em qualquer empresa do mundo, quando há exigências de conformidade que o fornecedor já entrega certificadas e quando a pressa de implantar vale mais do que a economia no longo prazo.
“Tem caso em que comprar é a decisão óbvia. Se o processo é igual em todas as empresas do mundo, construir é vaidade”, resume.
Antes de assinar, ele recomenda calcular o custo em 36 meses, somando mensalidade, reajuste, cobrança por consumo, integração, manutenção da integração, treinamento das equipes e saída. No contrato, a sugestão é negociar quatro proteções: teto de reajuste, portabilidade dos dados em formato aberto, aviso prévio se o modelo mudar ou for descontinuado e regra clara sobre quem paga se o fornecedor trocar a tecnologia por outra mais cara.
Por que, então, os créditos de IA acabam tão rápido? Porque, com a cobrança por consumo, cada uso tem preço, e sistemas mais complexos consomem muito mais. Para Friol, quem faz a conta do uso antes de contratar não é pego de surpresa quando a fatura chega.
